segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Fanatismos - Sergio Gallo

"O criador científico, como todos os outros, tende a ser inspirado por paixões a que dá expressão intelectual equivalente a uma fé não demonstrada, sem a qual provavelmente pouco realizaria" - Bertrand Russel, em Ensaios Céticos III
A crença numa civilização à base de máquinas e computadores traz os ingredientes do fanatismo. E fanatismo, seja de que tipo for, oblitera a razão. Tenho medo de sonhos futuristas que nos cercam de botões e automatismos por todos os lados. A perda de todo vestígio humanista tem, para mim, o sabor da morte. A ciência, de certo modo, precisa ser mais humilde e prudente que a filosofia, pois muda bem mais depressa seus postulados.
O gnothi seauton, o conhece-te a ti mesmo, do templo de Delfos, que Sócrates tomou como divisa de sua vida, tem resistido mais ao tempo que muitas verdades científicas. No fundo, a ciência busca conhecer o homem e o meio, a fim de garantir a sobrevivência da espécie. Segue, cônscia ou não, o conselho do mestre Platão, embora por caminhos diversos.
A objetividade científica é instável, depende, inclusive, do aprimoramento dos instrumentos de pesquisa e aferição. Galileu tomaria um susto diante da complexidade e potência dos telescópios modernos. Que diria Lavoisier diante do mais sofisticado laboratório? Como reagiria Arquimedes vendo a tecnologia de hoje?
E o conhece-te a ti mesmo aí está, desafiando o homem moderno, deixando o astronauta entre curioso e intrigado, quando contempla o espaço sideral, onde nada fala, além dele na nave. Quem é ele, afinal, vagando no céu em máquina feita por ele, o homem? Menos que um inseto, se comparado aos astros. Uma fagulha pensante da essência cósmica?
A tecnologia mais sofisticada tem que ser meio, não fim. Os fanáticos, é claro, não concordarão comigo; gostariam de ficar digitando teclas e mexendo em botões, conversando com telinhas da Internet e aparelhos de fax todo o dia. É pfreciso não perder tempo, um minuto é precioso, vale milhares de dólares.
Caixas eletrônicos em bancos, automóveis com painéis eletrônicos, robôs de vários tipos na indústria! Estão a um passo do sexo automático e do amor informatizado. As grandes cidades viraram megalópoles, já não são lugares de socialização, mas do contrário; geram violência, desconfiança, solidão, edifícios precedidos de grades.
Desemprego? Que importa? Desajuste psicológico? Que importa? Importa é o progresso, a modernidade. Mas que progresso? De máquinas, apenas? Modernidade em que o homem estranha cada vez mais o homem? Nunca foi tão comum rimar multidão com solidão.
Nem toda tecnologia é imprescindível a um mundo razoavelmente satisfatório ou razoavelmente agradável, do ponto de vista material. Imprescindível é o homem; sem ele, a cidade perde o sentido, o progresso perde o sentido, a própria vida.
Nosso século experimenta uma situação sui generis: não é humanista, mas não se livrou bem da antropomorfose. Na medida em que perde humanismo, a antropomorfose se torna oca, mecânica, contradizendo a si mesma.
Doenças foram eliminadas, mas o progresso, alterando a ecologia, criou doenças novas. Ganhar tempo através da tecnologia parece uma obsessão e será retrógrado aquele que denunciar tal situação. Seja como for, não há equilíbrio entre o tecnológico e o social, o tecnológico e o espírito. Donde se conclui que o homem deixou de ser sujeito e passou a ser objeto. George Santayana lembrou um dia (em A Vida da Razão, I): "Fanaticism consists in redoubling your efforts when you have forgotten your aim" (o fanatismo consiste em redobrar seus esforços quando já se esqueceu do seu alvo).
Nosso progresso material não tem um cronograma sério, vai ao sabor dos interesses e dos lucros. Acerta aqui e ali, é verdade, mas erra bastante e complica muita coisa que não consegue acertar. É bem verdade que nunca tivemos um cronograma sério, desde Roma. A experiência histórica, contudo, nos diz que já é hora de termos um. Mas, que fazer? O homem nunca foi muito razoável mesmo.
Houve um tempo em que se pensava que o fanatismo era apenas o religioso. Ledo engano. A ciência e a política não estão imunes a bacilo tão perigoso. Hegemonia é o paraíso do fanático, seja ele religioso, político ou científico. O fanático não tem a mente aberta, ipso facto, nem o coração. Como poderia nos amar?

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